A frase foi dita em outro contexto por Aristóteles, e o historiador fez questão de colocá-la em sua palestra sobre ética da infância à vida adulta.

O nascimento de um filho implica na consciência dos pais e da rede de apoio de que é preciso muito mais do que engajamento social e político para educá-lo, é preciso abrir mão de sucessivas coisas e ainda ter a certeza de que críticas e julgamentos sempre os esperam a cada passo, a cada pequeno deslize, a cada choro do filho.

Ao mesmo tempo que precisamos nos desdobrar em cem pessoas para conseguir administrar a casa, cuidar dos filhos, trabalhar fora e ter vida social, também recebemos olhares de condenação a cada pequeno deslize da criança, como se a ela não fosse permitido o direito à infância, aos erros e às inúmeras tentativas.

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Quando as pessoas se tornam adultas, elas se esquecem de que um dia já foram crianças e que tiveram poucas ou muitas chances de experienciar o mundo sob o olhar clínico da imaginação, e mesmo assim não querem que as crianças das próximas gerações tenham esse direito.

O historiador Leandro Karnalem um trecho de uma palestra disponível no Youtubeusou Aristóteles para falar um pouco sobre o que pensa serem os principais valores familiares. “A maior herança para os filhos é a vergonha na cara”afirma o historiador parafraseando o filósofo grego, enquanto amarra categoricamente sua explicação.

De acordo com Karnal, as crianças nascem sem nenhum tipo de noção de ética, e precisam aprender sobre isso nos seus primeiros anos, construindo sua base de valores ao lado da família, da comunidade escolar e de amigos.

Defendendo a tese de que as crianças precisam vivenciar experiências felizes e frustrantes ao longo, sem a necessidade de que os pais intervenham a toda hora, inibindo e superprotegendo-as, Karnal diz que mimar demais pode fazer com que as chances de serem adultos estúpidos sejam maiores.

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Sabemos que, nas últimas décadas, a quantidade de estudos das mais diversas áreas sobre comportamento e criação infantil abriram os olhos de pais e até da classe médica sobre as formas de agir na hora de auxiliar nossos filhos no processo de crescimento. Se antes a coerção e a agressão física eram aceitáveis e até consideradas exemplos de educação, hoje sabemos que a legislação brasileira — e aqui se inclui o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — defende o oposto.

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Estudos mostram que o “construto do apego”, comportamento que mostra disponibilidade de construir proximidade e contato, beneficia apenas as crianças que se sentem acolhidas e seguras quando estão em família. A ideia de que é preciso impor limites não é nova, mas vem sofrendo alterações ao longo das décadas.

Sabemos que os filhos precisam viver em sociedade, sabemos que eles precisam aprender a dividir e a ocupar espaços, a desenvolver noção de causa e consequência e que precisam arcar com o peso de suas ações. Mas isso não significa que os pais devam ver os filhos sofrerem ou que a qualquer sinal de dificuldade devam se omitir para que eles lidem sozinhos com seus problemas. Qual o benefício em ver o outro sofrer e passar dificuldade?

É preciso existir equilíbrio entre “coerção e consenso”, como diz Leandro Karnal ao longo de sua palestra. Não podemos ver nossos filhos lidando com um extremo ou outro porque precisam ser responsáveis, mas existe sim como ensinar valores e ética aos filhos com acolhimento e amor, sempre respeitando os sentimentos deles.

Crescemos em uma sociedade que acha bonita a exclusão das crianças dos espaços públicos e privados, que não as deixa usar a própria voz, sofrendo manipulação e até ameaças dentro e fora de casa. Compreendê-las como indivíduos com direitos, assim como os adultos, é dar um passo à frente, é abrir mão do sentimento hierárquico das relações para uma criação múltipla em que todos falam e todos são ouvidos.

Confira abaixo um trecho da palestra de Leandro Karnal: